A vida é feita de dias comuns
Quando precisamos ser excepcionais para sentir que nossa existência tem valor
Kamila Borges Castro
10/17/20266 min read
Existe uma pergunta que quase nunca fazemos quando avaliamos a própria vida: por que um dia comum parece, tantas vezes, um dia insuficiente?
Não aconteceu nada extraordinário. Não houve uma grande conquista, um reconhecimento, uma descoberta ou uma mudança importante. Apenas vivemos o dia.
Trabalhamos, cuidamos de alguém, conversamos, resolvemos pequenas questões, descansamos um pouco. Talvez tenhamos feito menos do que planejávamos. Talvez não tenhamos produzido nada que mereça ser contado.
E, ainda assim, podemos terminar o dia com a sensação de que faltou alguma coisa.
Mas o que, exatamente, faltou?
Tenho pensado que, para algumas pessoas, a dificuldade não está apenas em descansar ou desacelerar. Está em reconhecer valor em uma existência que não precisa, a todo momento, demonstrar alguma coisa.
Como se viver não fosse suficiente. Como se fosse necessário justificar a própria presença no mundo por meio de conquistas, inteligência, produtividade, reconhecimento ou disponibilidade para os outros.
A vida deixa de ser uma experiência e se transforma em uma avaliação permanente.
Fui produtiva o suficiente? Fiz algo importante? Alguém reconheceu meu esforço? Estou avançando? Tenho alguma coisa que me diferencia?
Sem perceber, podemos transformar a própria existência em um placar.
As diferentes formas de tentar merecer valor
Essa busca nem sempre aparece como competição explícita.
Às vezes, ela se manifesta na necessidade de ser a pessoa mais inteligente, mais competente ou mais bem-sucedida. Em outras situações, aparece no esforço de ser indispensável: aquela que resolve os problemas, sustenta a família, compreende todo mundo e está sempre disponível quando alguém precisa.
As formas são diferentes, mas vale investigar uma possibilidade: será que, em algumas dessas experiências, o desempenho está funcionando como uma condição para reconhecer o próprio valor?
Não se trata de afirmar que toda ambição esconde insegurança ou que ajudar os outros seja uma tentativa de obter reconhecimento. Conquistar, criar, cuidar e desenvolver talentos são dimensões importantes da vida.
A questão é outra.
O que acontece quando deixamos de fazer essas coisas porque queremos vivê-las e passamos a fazê-las porque precisamos provar que somos alguém?
Nesse deslocamento, uma capacidade que poderia ampliar nossa participação no mundo passa a funcionar como uma exigência. O talento deixa de ser apenas uma possibilidade de expressão e se transforma em uma obrigação de corresponder.
O descanso pode provocar culpa. O erro pode ameaçar a identidade. O sucesso alheio pode ser sentido como uma diminuição do nosso próprio valor.
E até aquilo que fazemos com prazer pode perder sua espontaneidade quando precisa produzir resultados.
Não é mais suficiente gostar de alguma coisa. Precisamos ser bons nela. Não basta realizar um trabalho. Precisamos demonstrar competência. Não basta pertencer. Precisamos oferecer alguma razão para merecer nosso lugar.
Talvez seja assim que os dias comuns comecem a parecer pequenos demais.
O que perdemos quando tudo precisa significar alguma coisa?
Existe uma diferença entre desejar que a vida se desenvolva e exigir que cada dia comprove que estamos avançando.
Na primeira situação, podemos ter projetos, ambições e vontade de aprender. Na segunda, corremos o risco de transformar cada experiência em uma medida do nosso valor.
O problema não é querer mais da vida. É não conseguir reconhecer a vida que já está acontecendo.
Podemos estar tão ocupados tentando nos tornar alguém que deixamos de perceber o que significa simplesmente estar aqui.
Uma conversa sem finalidade. Um almoço sem pressa. Uma atividade feita apenas pelo prazer de realizá-la. Uma tarde em que nada extraordinário aconteceu, mas em que estivemos presentes.
Essas experiências não precisam competir com as grandes conquistas. Elas fazem parte da mesma vida.
E talvez precisemos recuperar a possibilidade de vivê-las sem convertê-las em produtividade, aprendizado, desempenho ou motivo de orgulho.
Nem todo descanso precisa preparar você para trabalhar melhor. Nem toda experiência precisa gerar uma descoberta. Nem toda habilidade precisa ser desenvolvida até se tornar excepcional.
Algumas coisas podem existir simplesmente porque fazem parte do que torna a vida habitável.
Uma pergunta para a Terapia Orientada para Vida
Na minha investigação sobre a Terapia Orientada para Vida e a Neurobiologia da Expansão, uma questão tem ganhado importância: como reconhecer quando uma pessoa está ampliando sua capacidade de participar da própria vida?
É uma pergunta que desloca nossa atenção.
Estamos acostumados a observar dificuldades, sintomas, limitações e aquilo que uma pessoa ainda não consegue fazer. Esses aspectos são importantes. Mas o que acontece quando também investigamos sua capacidade de descansar, experimentar prazer, estabelecer vínculos, criar, explorar possibilidades e estar presente?
A expansão da vida não precisa ser confundida com fazer mais, conquistar mais ou alcançar um estado extraordinário.
Uma possibilidade que considero importante investigar é se ela também pode aparecer na ampliação da capacidade de viver experiências que já estavam disponíveis, mas que antes eram difíceis de acessar.
Alguém pode começar a descansar sem experimentar a mesma culpa de antes. Pode errar sem transformar o erro em uma condenação de si. Pode participar de uma conversa sem precisar provar inteligência. Pode desfrutar de uma conquista sem precisar compará-la com a de outra pessoa.
Esses exemplos não constituem, por si só, indicadores científicos validados de expansão. São fenômenos que podem orientar perguntas clínicas e investigação sistemática.
O que me interessa é a mudança que essas experiências podem representar: a vida deixa de estar tão subordinada à necessidade de demonstrar valor e passa a comportar outras formas de participação.
Não significa abandonar objetivos. Significa investigar se conseguimos persegui-los sem fazer deles a condição para reconhecer nossa existência.
Pertencer sem precisar ser excepcional
Essa questão também alcança nossas relações.
O que acontece em uma família quando cada pessoa precisa ser especial para receber atenção? Quando o reconhecimento se concentra nas melhores notas, nos maiores talentos, nas conquistas mais impressionantes ou na capacidade de resolver problemas?
Mesmo sem intenção, podemos construir ambientes em que o pertencimento parece depender de um desempenho.
Nesse contexto, celebrar um talento pode se confundir com estabelecer uma hierarquia. Um erro pode deixar de ser apenas uma experiência e passar a ameaçar o lugar que alguém ocupa. A conquista de uma pessoa pode parecer diminuir a importância das outras.
Talvez precisemos construir relações nas quais seja possível reconhecer capacidades sem transformá-las em medidas de superioridade.
Uma pessoa pode ser inteligente sem precisar ser a mais inteligente. Pode ajudar sem precisar ser indispensável. Pode realizar algo extraordinário sem se tornar mais merecedora de amor ou pertencimento.
E pode atravessar um período em que não produz, não conquista, não se destaca e ainda assim continuar tendo lugar.
Seus talentos são recursos para viver, não provas de que você merece pertencer.
Essa frase contém uma distinção importante. O talento pode ampliar nossas possibilidades, mas não precisa justificar nosso valor. A capacidade de contribuir para o mundo não deveria ser confundida com a obrigação de oferecer alguma coisa em troca do direito de fazer parte dele.
Talvez o pertencimento mais seguro não seja aquele que recebemos depois de demonstrar quem somos, mas aquele que nos permite descobrir quem podemos ser sem colocar nosso lugar em julgamento a cada tentativa.
A vida também acontece quando nada extraordinário acontece
Não quero defender uma vida sem ambição, projetos ou desejo de realização.
Quero investigar outra possibilidade: a de construir uma relação com a existência em que o valor de um dia não dependa exclusivamente daquilo que conseguimos produzir, conquistar ou demonstrar.
Talvez possamos continuar desenvolvendo nossos talentos sem sermos definidos por eles. Ajudar sem precisar salvar. Crescer sem transformar cada etapa em uma competição. Descansar sem sentir que estamos desperdiçando nosso potencial.
E talvez possamos reconhecer que um dia não precisa ser extraordinário para ter sido vivido.
Essa mudança pode parecer simples quando formulada em palavras. Mas, para quem aprendeu a encontrar segurança no desempenho, no controle ou no reconhecimento, experimentar essa possibilidade pode exigir um processo mais profundo do que simplesmente compreender que não precisa provar nada.
É por isso que me interessa investigar não apenas aquilo em que acreditamos sobre nosso valor, mas também as condições emocionais, relacionais e corporais que tornam possível viver de outra maneira.
Porque compreender que não precisamos ser excepcionais é diferente de conseguir descansar quando não estamos produzindo. Saber que o erro não define quem somos é diferente de conseguir errar sem sentir que perdemos nosso lugar.
Entre compreender uma ideia e conseguir vivê-la existe um caminho que merece ser investigado.
E talvez uma parte desse caminho comece quando deixamos de perguntar o que fizemos de extraordinário hoje e passamos a observar como conseguimos participar da vida que estava acontecendo.
Afinal, a vida não é feita apenas dos dias que mudaram tudo.
É feita também das manhãs comuns, das conversas sem importância aparente, dos pequenos gestos de cuidado, das pausas, das tentativas e de tudo aquilo que não chega a compor uma história impressionante.
É feita de dias que não precisam provar nada.
E se o próximo passo não for fazer algo extraordinário, mas ampliar nossa capacidade de viver os dias comuns sem sentir que precisamos merecê-los?