Neurociência e Psicologia: compreender o cérebro sem reduzir o ser humano a ele.

Durante muito tempo, cérebro e mente foram tratados como se pertencessem a mundos diferentes. De um lado, a neurociência investigava o funcionamento do sistema nervoso; de outro, a psicologia buscava compreender emoções, pensamentos, comportamentos e relações humanas

Kamila Borges Castro

8/27/20266 min read

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Durante muito tempo, cérebro e mente foram tratados como se pertencessem a mundos diferentes. De um lado, a neurociência investigava o funcionamento do sistema nervoso; de outro, a psicologia buscava compreender emoções, pensamentos, comportamentos e relações humanas.

Hoje, sabemos que essa separação é insuficiente.

Toda experiência psicológica acontece em um organismo. E todo funcionamento cerebral acontece em uma pessoa inserida em uma história, em relações, em um ambiente e em uma cultura.

Por isso, compreender o ser humano exige aproximar essas duas perspectivas.

A neurociência investiga os mecanismos biológicos envolvidos na percepção, atenção, memória, emoção, aprendizagem, motivação e regulação. A psicologia, por sua vez, investiga como esses processos se organizam na experiência humana: como pensamos, sentimos, atribuímos significado, estabelecemos vínculos, aprendemos e construímos padrões de comportamento.

Uma não substitui a outra.

O cérebro não existe separado da experiência

O cérebro não é uma estrutura pronta e imutável que simplesmente determina quem somos.

Ele está continuamente recebendo informações do corpo e do ambiente, modificando conexões e ajustando seu funcionamento de acordo com as experiências vividas.

Esse processo está relacionado à neuroplasticidade, capacidade do sistema nervoso de modificar sua organização e seu funcionamento em resposta à experiência e à aprendizagem.

Isso significa que experiências repetidas deixam marcas funcionais.

Aquilo que praticamos tende a ser aprendido.

Aquilo que vivenciamos repetidamente pode influenciar nossas expectativas.

Aquilo que precisamos fazer muitas vezes pode tornar-se automático.

E aquilo que foi necessário para nossa adaptação pode continuar sendo reproduzido mesmo quando as circunstâncias mudam.

É por isso que determinados padrões emocionais e comportamentais podem persistir mesmo quando a pessoa racionalmente deseja agir de outra maneira.

Não é simplesmente uma questão de “saber o que fazer”.

É também uma questão de como o organismo aprendeu a responder.

A experiência transforma o cérebro

Uma das contribuições mais importantes da neurociência para a psicologia é demonstrar que a experiência participa da organização cerebral.

Aprender uma habilidade, estabelecer uma relação de confiança, experimentar repetidamente uma situação de ameaça ou desenvolver novas formas de atenção são experiências capazes de influenciar o funcionamento do sistema nervoso.

Isso não significa que uma experiência isolada determine permanentemente o cérebro.

O desenvolvimento humano é muito mais complexo.

Genética, desenvolvimento, relações, ambiente, sono, aprendizagem, condições sociais, experiências adversas e inúmeros outros fatores interagem continuamente.

Por isso, não existe uma relação simples entre uma experiência e um comportamento.

O cérebro é plástico, mas essa plasticidade acontece dentro de um organismo e de uma história.

Emoção não é o oposto da razão

Outro ponto importante da integração entre neurociência e psicologia é a compreensão das emoções.

Durante muito tempo, a razão foi colocada como superior às emoções, como se uma pessoa emocionalmente saudável fosse aquela capaz de controlar ou eliminar seus sentimentos.

A neurociência contemporânea oferece uma compreensão mais complexa.

Emoções participam da tomada de decisão, da avaliação de relevância, da aprendizagem, da memória e da orientação do comportamento.

O problema não é sentir.

O problema pode estar na dificuldade de reconhecer, regular e integrar aquilo que sentimos.

Uma pessoa tomada pela raiva pode agir impulsivamente.

Uma pessoa desconectada da própria experiência emocional pode ter dificuldade para perceber limites, necessidades ou sinais importantes do próprio corpo.

A integração entre emoção e cognição permite maior flexibilidade.

Não se trata de escolher entre “sentir” ou “pensar”.

Trata-se de conseguir sentir, perceber, compreender e então responder.

O corpo também participa da experiência psicológica

A psicologia contemporânea vem ampliando cada vez mais sua atenção para a relação entre mente e corpo.

Respiração, frequência cardíaca, tensão muscular, postura, percepção visceral e estados autonômicos participam da maneira como experimentamos o mundo.

O conceito de interocepção, por exemplo, refere-se à percepção dos estados internos do organismo.

Isso ajuda a compreender por que determinadas emoções são percebidas primeiro no corpo.

Um aperto no peito.

Um nó na garganta.

Uma aceleração cardíaca.

Uma sensação de vazio no estômago.

Uma contração muscular.

Essas experiências corporais não são simplesmente “sintomas separados da mente”. Elas fazem parte da experiência emocional.

O corpo participa da construção daquilo que sentimos e da maneira como interpretamos o que acontece.

Trauma: quando a aprendizagem permanece

A integração entre neurociência e psicologia é especialmente relevante na compreensão do trauma.

Uma experiência ameaçadora pode produzir aprendizagens profundas sobre perigo, segurança, confiança e proteção.

Quando determinadas experiências se repetem, o organismo pode desenvolver estratégias cada vez mais rápidas para antecipar e responder à ameaça.

A pessoa aprende a evitar.

Aprende a controlar.

Aprende a desconfiar.

Aprende a agradar.

Aprende a ficar em silêncio.

Aprende a antecipar o humor dos outros.

Aprende a estar sempre preparada.

Essas respostas podem ter sido extremamente importantes em determinado contexto.

O problema aparece quando continuam sendo utilizadas em contextos nos quais já não são necessárias.

Nesse sentido, o trauma não deve ser compreendido apenas como uma lembrança de algo que aconteceu.

Ele pode envolver aprendizagens que continuam influenciando a maneira como o organismo percebe e responde ao presente.

Psicoterapia também é experiência

Se experiências repetidas participam da aprendizagem do sistema nervoso, a psicoterapia pode ser compreendida como um espaço no qual novas experiências podem acontecer.

Isso não significa afirmar que conversar “reprograma o cérebro” de maneira simples ou automática.

A mudança terapêutica é muito mais complexa.

Ela pode envolver novas formas de perceber, nomear, sentir, recordar, relacionar-se, regular emoções e experimentar segurança.

Uma relação terapêutica consistente pode oferecer experiências diferentes daquelas que sustentaram determinados padrões.

A pessoa pode aprender a reconhecer seus estados internos.

Pode descobrir que uma emoção pode ser sentida sem ser imediatamente transformada em ação.

Pode perceber que pode estabelecer limites sem perder necessariamente o vínculo.

Pode experimentar descanso sem precisar produzir.

Pode reconhecer uma conquista sem imediatamente procurar a próxima ameaça.

Essas experiências podem favorecer novas aprendizagens.

Da compreensão à mudança

Uma das maiores contribuições da neurociência para a psicologia não é oferecer explicações para tudo.

É mostrar que comportamento, emoção e experiência são fenômenos complexos, produzidos pela interação entre cérebro, corpo, história e ambiente.

Isso também exige cuidado.

Nem todo comportamento pode ser explicado por uma única região cerebral.

Nem todo sofrimento é resultado de um “desequilíbrio químico”.

Nem toda experiência humana pode ser reduzida a neurotransmissores.

E nenhuma imagem cerebral, isoladamente, explica a totalidade de uma pessoa.

O cérebro é fundamental.

Mas o ser humano é maior do que seu cérebro.

Somos organismos em relação.

Temos histórias.

Criamos significados.

Estabelecemos vínculos.

Aprendemos.

Interpretamos.

Escolhemos.

E também somos transformados pelas experiências que vivemos.

Uma psicologia orientada para a vida

É nessa integração que a Terapia Orientada para Vida encontra uma de suas bases.

Compreender o sistema nervoso é importante porque ele participa diretamente da maneira como percebemos segurança, ameaça, vínculo, prazer, desafio e possibilidade.

Compreender a psicologia é igualmente essencial porque seres humanos não vivem apenas estados neurofisiológicos. Vivem histórias, relações, conflitos, desejos, perdas, escolhas, valores e projetos.

Por isso, o objetivo da terapia não precisa ser apenas diminuir sintomas.

Pode ser também ampliar a capacidade de viver.

Ampliar a capacidade de permanecer presente.

De reconhecer o próprio corpo.

De perceber estados internos.

De regular-se.

De estabelecer vínculos.

De experimentar segurança.

De sentir prazer.

De explorar.

De criar.

De escolher.

De construir novas possibilidades.

A neurociência nos ajuda a compreender como o organismo aprende.

A psicologia nos ajuda a compreender o que essa aprendizagem significa para uma vida humana.

Quando essas perspectivas se encontram, deixamos de olhar para o cérebro como uma máquina isolada e começamos a compreender o ser humano como um sistema vivo, plástico, relacional e em permanente processo de transformação.

E talvez essa seja uma das ideias mais importantes para uma psicologia contemporânea:

não somos prisioneiros daquilo que nosso sistema nervoso aprendeu.

Mas também não mudamos simplesmente porque decidimos mudar.

Entre uma coisa e outra existe um processo de aprendizagem.

E é nesse espaço que a psicoterapia pode criar novas experiências, novas possibilidades e, gradualmente, uma nova maneira de participar da própria vida.

Referências teóricas

Damasio, A. (1994). Descartes' Error: Emotion, Reason, and the Human Brain. Putnam.

Porges, S. W. (2011). The Polyvagal Theory. W. W. Norton.

Siegel, D. J. (2012). The Developing Mind. Guilford Press.

van der Kolk, B. A. (2014). The Body Keeps the Score. Viking.

Schore, A. N. (2003). Affect Regulation and the Repair of the Self. W. W. Norton.

Kandel, E. R. (1998). A new intellectual framework for psychiatry. American Journal of Psychiatry, 155(4), 457–469.