O Que Há de Errado com Nossas Criança?

Um diagnóstico pode explicar um sofrimento — ou distorcer completamente sua origem. Neste ensaio, uma reflexão pessoal e crítica sobre os limites dos diagnósticos psiquiátricos baseados apenas em comportamento, os riscos do superdiagnóstico de TEA e TDAH, e a confusão crescente entre trauma, altas habilidades e neurodivergência. Mais do que questionar rótulos, este texto propõe uma pergunta mais profunda: estamos realmente compreendendo as pessoas, ou apenas classificando sintomas?

Elisa Castro Lopes de Brito

5/6/20265 min read

boy near white wooden shelf
boy near white wooden shelf

A doença mental está sendo super diagnosticada hoje, ou apenas melhor
reconhecida?
Aos quatorze anos, não entrei no consultório de um neurologista acreditando que estava
doente. Entrei curiosa — querendo entender por que acertava provas escrevendo o que me
vinha à cabeça, por que interação social me esgotava seletivamente, por que meus
pensamentos se moviam mais rápido do que as conversas ao meu redor conseguiam
acompanhar. A avaliação produziu dois diagnósticos: TDAH e TEA. Também produziu um
QI abaixo da média — resultado que desconfiei, tendo feito o teste distraída e desengajada
com o que parecia medir atenção, não inteligência.
Não estava errada em desconfiar. O diagnóstico de TEA me incomodou por razões
diferentes: sou sociável, confortável com contato físico, e raramente afetada por ambientes
barulhentos da forma que os critérios descrevem. Não estou afirmando que não tenho TEA
— é bem possível que tenha. Estou questionando se os comportamentos observados eram
suficientes para provar isso, ou se parte do que foi capturado era trauma, altas habilidades,
ou simplesmente quem eu sou. O que a lista de critérios capturou foram comportamentos —
seletividade social, cognição acelerada, intensidade emocional — que aparecem
identicamente no TEA, nas altas habilidades e em respostas a trauma. A lista não
conseguia distinguir entre eles.
Não estou argumentando que meu sofrimento era imaginário. Estou argumentando algo
mais preciso: o sistema diagnóstico atual é construído sobre critérios comportamentais
sobrepostos em vez de mecanismos causais — e essa imprecisão produz erros de
classificação em escala. Quando altas habilidades são codificadas como TEA, quando
trauma se apresenta como TDAH, o paciente não recebe reconhecimento — recebe a
resposta errada. A doença mental está sendo super-diagnosticada não porque o sofrimento
seja inventado, mas porque os instrumentos que usamos não conseguem distinguir
condições que compartilham a superfície mas diferem completamente por dentro.
O sistema diagnóstico dominante na psiquiatria contemporânea é construído sobre uma
premissa comportamentalista: que transtornos como TEA e TDAH se manifestam em
comportamentos observáveis e que, portanto, podem ser identificados por meio deles. O
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — o DSM — opera exatamente
dessa forma, listando critérios comportamentais que, se presentes em número suficiente,
justificam um diagnóstico. Nenhum exame físico obrigatório. Nenhuma investigação da
origem. Apenas comportamento contado e classificado.
O problema é que essa lógica ignora uma distinção fundamental: comportamento é
superfície, não causa. Os mesmos sintomas que caracterizam o TEA — hipersensibilidade
sensorial, dificuldade de interação social, agitação em ambientes barulhentos — aparecem
de forma idêntica em indivíduos processando trauma não resolvido. No meu próprio caso,
sintomas físicos como dores de cabeça e agonia com barulho, interpretados como traços do
espectro autista, desapareceram completamente após mudança de ambiente escolar e
terapia de neuroprocessamento para trauma. Um diagnóstico de TEA não desaparece
quando o ambiente muda. Um trauma pode — e o meu desapareceu.

Isso revela uma falha estrutural: quando o sistema olha apenas para o comportamento, o
laudo se torna uma lente que distorce a percepção do próprio paciente. Ser tratada como
fundamentalmente diferente em função de um diagnóstico gerou mais surtos do que os
sintomas originais jamais gerariam. A terapia comportamental, principal resposta clínica ao
TEA e ao TDAH, não resolve trauma — ela adequa o indivíduo aos padrões que a
sociedade aceita. Isso não é tratamento. É adaptação forçada a um problema que nunca foi
corretamente identificado.
A confusão entre altas habilidades e Transtorno do Espectro Autista não é um erro raro — é
uma consequência previsível de um sistema que avalia comportamento sem investigar
origem. Uma criança com altas habilidades intelectuais em um ambiente escolar
inadequado vai analisar o espaço ao seu redor, selecionar criteriosamente as pessoas com
quem interage e se entediar rapidamente com conteúdo que não acompanha seu ritmo
cognitivo. Uma criança com TEA vai se irritar com a quantidade de pessoas, com o barulho,
com a imprevisibilidade do ambiente. O comportamento externo é superficialmente
semelhante. A causa interna é completamente diferente — uma é seletividade intelectual, a
outra é sobrecarga sensorial. O DSM não foi projetado para distinguir entre as duas.
As consequências desse erro não são abstratas. Quando uma criança com altas
habilidades e trauma não resolvido recebe um diagnóstico de TEA, ela passa a ser tratada
como fundamentalmente diferente — não como alguém com potencial não estimulado, mas
como alguém com uma condição permanente que precisa ser gerenciada. O diagnóstico
correto nunca chega. O trauma subjacente nunca é tratado. E o que poderia ter sido
resolvido com terapia adequada se transforma em sofrimento acumulado.
No meu próprio caso, se meus pais tivessem simplesmente aceitado o diagnóstico de TEA
sem questionar, sem buscar terapia de trauma, o resultado seria diferente. Provavelmente
estaria hoje mais ansiosa, mais introspectiva, sem energia para realizar o que quero. O
diagnóstico errado não é apenas impreciso — é destrutivo. Ele substitui uma pergunta que
poderia ter mudado tudo: não "o que há de errado com essa criança?" mas "o que
aconteceu com essa criança?"
O diagnóstico impreciso não afeta apenas o indivíduo — ele corrói o sistema inteiro.
Quando uma pessoa recebe um diagnóstico errado, ela entra num ciclo de tratamentos
inadequados para uma condição que não tem, enquanto a causa real — seja trauma, altas
habilidades mal estimuladas ou outro quadro — permanece sem atenção. O que poderia ser
resolvido com uma intervenção simples e direcionada se transforma em anos de
acompanhamento que não chegam a lugar nenhum. A pessoa vira um número numa
estatística de prevalência que alimenta o próprio super-diagnóstico.
Há ainda uma consequência social que raramente é discutida com honestidade: quando os
critérios diagnósticos se expandem além da precisão, o diagnóstico perde sua função
protetora e passa a ser usado como escudo. Existe uma diferença fundamental entre usar
um diagnóstico como explicação e usá-lo como desculpa. Usar o TEA para justificar a
necessidade de fazer provas em ambiente separado, com tempo para concentração e
leitura em voz alta, é legítimo — remove uma barreira real sem eliminar a exigência. Usar o
mesmo diagnóstico para exigir provas adaptadas mais fáceis, quando a capacidade está

presente, é outra coisa. Uma usa o diagnóstico para nivelar o campo. A outra usa para
evitar o jogo.
Quando essa distinção desaparece na prática clínica e social, a credibilidade de quem
genuinamente precisa do diagnóstico se deteriora. A fila preferencial cresce além da
necessidade real. A sociedade começa a desconfiar de todos os diagnósticos. E quem
realmente tem a condição passa a carregar não só o peso dela, mas também o ceticismo
gerado por quem a usou indevidamente. O super-diagnóstico, portanto, não prejudica
apenas o paciente mal classificado — prejudica toda a comunidade que depende da
precisão diagnóstica para ser respeitada.
Este ensaio não é uma crítica à ciência psiquiátrica — é um convite ao pensamento crítico
dentro dela. O sofrimento humano é real. Os transtornos mentais são reais. O que está em
questão não é a existência das condições, mas a precisão dos instrumentos que usamos
para identificá-las. O ponto de partida para uma pergunta que acredito ser urgente: estamos
de fato vendo as pessoas, ou apenas contando seus comportamentos? A resposta a essa
pergunta pode não estar nos manuais. Pode estar em olhar cada indivíduo com a
curiosidade que ele merece.