Pertencer sem precisar ser excepcional

Quando o valor pessoal parece depender daquilo que temos a oferecer

Kamila Borges Castro

10/17/20263 min read

group stacking hands in colorful sweaters
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O que faz uma pessoa sentir que tem lugar em uma relação?

Ser amada? Ser reconhecida? Ser importante para alguém?

Talvez essas experiências façam parte do pertencimento. Mas existe uma pergunta que me interessa particularmente: o que acontece quando alguém sente que precisa oferecer alguma coisa em troca do próprio lugar?

Pode ser inteligência, competência, beleza, sucesso ou a capacidade de resolver os problemas de todo mundo.

A pessoa talvez nem perceba que está fazendo isso. Apenas se esforça, se destaca, ajuda, conquista e procura corresponder às expectativas. E, quando não consegue, alguma coisa parece ameaçar o valor que atribui a si mesma.

Como se pertencer não fosse uma condição da relação, mas uma posição que precisa ser conquistada repetidamente.

As diferentes formas de tentar merecer um lugar

A necessidade de ser excepcional nem sempre aparece como competição.

Às vezes, manifesta-se na busca por ser a mais inteligente, a mais competente ou a mais bem-sucedida. Em outras situações, aparece na necessidade de ser indispensável: aquela que sustenta, resolve, compreende e está sempre disponível.

Em ambos os casos, vale investigar uma possibilidade: será que a pessoa aprendeu a reconhecer seu valor principalmente por aquilo que consegue oferecer?

Isso não significa que toda dedicação seja uma tentativa de obter reconhecimento. Cuidar, contribuir e desenvolver talentos são expressões legítimas da vida.

A questão é perceber quando essas capacidades deixam de ser possibilidades e passam a funcionar como exigências.

Quando ajudar se transforma em obrigação. Quando errar ameaça a identidade. Quando o sucesso de outra pessoa é sentido como uma diminuição do próprio valor.

Nessas situações, o problema talvez não esteja no talento, na competência ou na generosidade, mas no lugar que essas características ocupam na experiência de quem precisa delas para se sentir merecedor de pertencimento.

O que ensinamos quando celebramos apenas a excepcionalidade?

Essa questão também merece atenção nas relações familiares.

O que acontece quando o reconhecimento se concentra nas melhores notas, nos maiores talentos, nas conquistas mais impressionantes ou na capacidade de resolver problemas?

Mesmo sem intenção, podemos criar ambientes em que algumas formas de existir recebem mais atenção do que outras.

Uma criança pode começar a perceber que é admirada quando se destaca. Outra pode descobrir que recebe atenção quando ajuda. Uma terceira pode tentar ocupar seu espaço por meio da oposição ou da competição.

Não podemos concluir que essas experiências produzirão necessariamente determinado comportamento. Mas podemos investigar como as formas de reconhecimento e as expectativas relacionais participam da construção do valor pessoal.

Talvez uma das tarefas mais importantes de uma família seja permitir que seus integrantes desenvolvam capacidades sem transformar essas capacidades em uma hierarquia de valor.

O talento pode ser celebrado sem que se torne uma medida de superioridade. O erro pode ser acolhido sem precisar virar uma lição imediata. A conquista de uma pessoa pode ser reconhecida sem diminuir a importância das outras.

E alguém pode atravessar um período em que não se destaca, não produz resultados extraordinários e não tem respostas para oferecer sem perder seu lugar na relação.

Pertencer também é poder não impressionar

Na perspectiva da Terapia Orientada para Vida, essa reflexão abre uma pergunta que vai além da compreensão intelectual.

Uma pessoa pode saber que não precisa ser excepcional para merecer amor e, ainda assim, sentir desconforto quando não é reconhecida, culpa quando deixa de ajudar ou insegurança quando outra pessoa se destaca.

Compreender uma ideia não significa necessariamente conseguir vivê-la.

Por isso, além de investigar as crenças sobre o próprio valor, precisamos observar como a pessoa experimenta suas relações: consegue receber ajuda? Pode dizer não? Tolera não ser a melhor? Consegue descansar sem sentir que está decepcionando alguém?

São perguntas para investigação clínica, não critérios diagnósticos.

Elas nos ajudam a observar se existe espaço para uma forma de pertencimento em que a pessoa não precise estar permanentemente demonstrando sua importância.

Seus talentos são recursos para viver, não provas de que você merece pertencer.

Essa é uma distinção que considero fundamental.

Podemos desenvolver nossas capacidades, contribuir para o mundo e realizar coisas extraordinárias sem transformar essas realizações em condições para reconhecer nosso valor.

Talvez o pertencimento se torne mais seguro quando podemos experimentar algo diferente: continuar tendo lugar mesmo quando não estamos oferecendo nosso melhor desempenho.

E talvez uma pergunta importante para nossas relações seja esta:

Estamos ajudando as pessoas a descobrir quem podem ser ou ensinando, mesmo sem perceber, que precisam ser excepcionais para ter lugar entre nós?