Por que alguém deseja se tornar um salvador?

Quando ser necessário se torna uma forma de reconhecer o próprio valor

Kamila Borges Castro

10/17/20264 min read

Man in superhero costume standing outside building
Man in superhero costume standing outside building

Tenho pensado em uma questão que atravessa diferentes relações, inclusive a relação entre terapeuta e paciente: por que, para algumas pessoas, cuidar parece nunca ser suficiente? Por que surge a necessidade de resolver, antecipar, orientar e encontrar uma saída para o sofrimento do outro, mesmo quando isso custa a própria energia?

À primeira vista, podemos reconhecer nessas atitudes empatia, generosidade e compromisso. E elas podem, de fato, expressar essas qualidades.

Mas existe outra possibilidade que merece investigação: e se, em algumas situações, ser necessário também for uma maneira de sentir que temos valor?

Quando ajudar deixa de ser apenas uma escolha

Uma pessoa pode aprender, ao longo da vida, a reconhecer sua importância pelo que consegue fazer pelos outros.

Ser aquela que resolve. A que compreende. A que suporta mais. A que encontra saídas quando ninguém mais consegue.

Talvez ela não pense conscientemente que precisa salvar alguém para merecer amor ou reconhecimento. Ainda assim, pode experimentar uma inquietação particular quando não consegue ajudar, quando alguém rejeita sua orientação ou quando percebe que sua presença não é indispensável.

Nessas situações, vale investigar se existe uma associação entre ser útil e sentir-se importante.

Se consigo ajudar, tenho valor.

Se sou necessária, tenho lugar.

Se alguém sofre e eu posso fazer alguma coisa, como posso simplesmente não fazer?

Essas frases não descrevem todas as pessoas cuidadoras, nem explicam, sozinhas, a origem do comportamento de salvamento. São possibilidades que podem nos ajudar a investigar o significado que ajudar assume na história de cada pessoa.

O problema não está em cuidar. Está em quando cuidar deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como uma exigência interna.

A pessoa já não ajuda apenas porque deseja contribuir. Ela pode sentir que precisa ajudar para continuar reconhecendo a própria importância.

Quando essa dinâmica aparece na psicoterapia

Essa questão merece atenção especial na prática clínica.

O psicoterapeuta pode estudar, desenvolver recursos, formular hipóteses e se comprometer profundamente com o processo de quem atende. Tudo isso faz parte do trabalho.

Mas também pode experimentar uma pressão interna para produzir resultados, encontrar a intervenção certa ou fazer com que o sofrimento do paciente diminua.

Quando isso acontece, uma pergunta importante surge: o que significa para mim quando uma pessoa continua sofrendo, mesmo depois de todo o trabalho que realizamos?

Consigo reconhecer que o processo terapêutico envolve diferentes variáveis, ritmos e limites? Ou começo a interpretar a continuidade do sofrimento como evidência de que não estou fazendo o suficiente?

Existe uma diferença entre assumir a responsabilidade pelo próprio trabalho e assumir a responsabilidade pelo resultado da vida de outra pessoa.

O terapeuta é responsável pela qualidade de sua atuação, pela ética, pela revisão de suas hipóteses e pela atenção às necessidades clínicas do paciente. Mas não controla integralmente o processo, as escolhas ou o tempo de mudança de quem atende.

Quando essas responsabilidades se confundem, o cuidado pode se transformar em uma tentativa de controlar aquilo que não está inteiramente sob nosso controle.

E talvez seja justamente aí que o desejo de ajudar comece a se aproximar do salvamento.

A diferença entre salvar e acompanhar

Na perspectiva da Terapia Orientada para Vida, essa distinção abre uma questão importante: como podemos participar ativamente do processo de alguém sem tomar para nós a tarefa de conduzir sua vida?

A postura orientada ao salvamento pode se organizar em torno da pergunta:

O que preciso fazer para que essa pessoa melhore?

A postura investigativa começa de outro lugar:

O que está acontecendo com essa pessoa? Que recursos estão disponíveis? O que ela consegue reconhecer, experimentar e construir a partir daqui?

A diferença não está na quantidade de afeto ou na disposição para ajudar. Está na maneira como compreendemos nossa participação no processo.

Acompanhar não significa permanecer passivo diante do sofrimento. Significa intervir quando necessário, oferecer recursos, avaliar riscos, rever estratégias e sustentar o trabalho clínico sem presumir que precisamos produzir a mudança pelo paciente.

Podemos nos importar sem nos apropriar do problema.

Podemos oferecer uma possibilidade sem exigir que ela seja aceita.

Podemos acompanhar alguém que ainda sofre sem transformar esse sofrimento em uma medida automática da nossa competência.

E podemos reconhecer os limites da nossa atuação sem concluir que falhamos como pessoas.

Quem somos quando deixamos de ser necessários?

Talvez essa seja a pergunta mais difícil.

Se construímos parte da nossa identidade em torno da capacidade de ajudar, o que acontece quando o outro não precisa de nós? Quando encontra suas próprias respostas? Quando escolhe um caminho diferente daquele que sugerimos?

Conseguimos reconhecer a autonomia dessa pessoa sem sentir que perdemos nossa importância?

E, se não houver ninguém para cuidar naquele momento, conseguimos reconhecer valor em nós mesmos?

Essas perguntas não pressupõem que todo cuidado esconda uma necessidade de reconhecimento. Elas nos convidam a observar o que acontece quando a possibilidade de ajudar deixa de estar disponível.

Na minha investigação sobre a Terapia Orientada para Vida e a Neurobiologia da Expansão, considero importante explorar uma hipótese: talvez uma parte da vitalidade possa ser recuperada quando deixamos de gastar energia tentando produzir no outro um resultado que não controlamos.

Essa é uma hipótese de trabalho, não uma conclusão científica estabelecida.

Ela aponta, porém, para uma direção que considero relevante: ampliar a capacidade de cuidar sem precisar controlar, acompanhar sem precisar conduzir e reconhecer o sofrimento sem transformá-lo em uma convocação permanente para agir.

Talvez não precisemos deixar de ser pessoas cuidadoras.

Talvez precisemos descobrir quem podemos ser quando o cuidado deixa de ser a condição para reconhecer nosso próprio valor.

Quero saber de você:

Na sua experiência, como percebe a diferença entre cuidar porque deseja contribuir e sentir que precisa resolver o sofrimento do outro?

E, na prática clínica, como você reconhece o momento em que o compromisso terapêutico começa a se confundir com a necessidade de produzir uma mudança?

Vamos investigar isso juntos?